Luize Valente nasceu no Rio de Janeiro. De ascendência portuguesa e alemã, é escritora e documentarista. Formada em Jornalismo, pós-graduada em Literatura Brasileira pela PUC/RJ, sempre foi apaixonada por História, com especial fascínio por temas ligados ao Judaísmo e aos refugiados em tempos de guerra. Autora dos romances históricos SONATA EM AUSCHWITZ (2017), UMA PRAÇA EM ANTUÉRPIA (2015) e O SEGREDO DO ORATÓRIO (2012), todos publicados pela Editora Record. Vamos conhecer um pouco mais sobre ela?

ENTREVISTA

GETTUB: Quem é a mulher Luize Valente? Quem é a escritora Luize Valente? Há diferenças?

LUIZE: As semelhanças são maiores que as diferenças. O que move uma e outra é, por um lado, a curiosidade pelo mundo e pelo ser humano e, por outro, a persistência. Ambos os lados são muito intensos e caminham juntos, a ponto de não saber mais onde começa um e termina o outro. Vivo respirando possíveis histórias que possam transmitir minhas inquietações. Ou seja, a inquietação na vida me faz ter vontade de contar histórias e, ao mesmo tempo, ter comprometimento com esse contar.

GETTUB: Como é ter influência de três nacionalidades (Brasil, Portugal e Alemanha)? Alguma sobressai, ou as três a definem de forma igual?

LUIZE: Sou uma mistura destas três influências, mas a que mais se sobressai é, certamente, a brasileira. Apesar dos tempos difíceis em que vivemos, me sinto muito brasileira. Acho que é uma característica nossa, bem brasileira, enfrentar as adversidades de frente, o jogo de cintura. Por outro lado, essa ascendência europeia forte deve ter alguma coisa a ver com minha paixão por História e pelas sagas familiares (começando pelas minhas).

GETTUB: Seus três livros têm como base a busca pelas origens, o entendimento do passado, as fugas do nazismo, a sobrevivência em tempos de guerra, a convivência com a discriminação. Isso é motivado por uma busca pessoal pela compreensão desses sentimentos e acontecimentos, ou por qual outra motivação?

LUIZE: Posso dizer, sim, que minha motivação dentro desses temas nasceu de uma busca pessoal e continua até hoje, como uma forma de tentar compreender períodos tão sombrios da História, como a Inquisição e o nazismo. Acho que tento dividir com as pessoas minha angústia com questões que não consigo aceitar e que fogem do racional. Uma espécie de expiação humana.

GETTUB: No mundo de hoje, existe uma exaltação da burrice como forma de rebeldia. Entre muitos absurdos, como a afirmação de que o planeta é plano ou que o homem nunca foi à Lua, existem vozes que duvidam do Holocausto e do número de judeus assassinados durante a Segunda Guerra Mundial. O que pensa sobre esse comportamento e o que poderia dizer para essas pessoas?

LUIZE: Acho que você disse muito bem: uma exaltação da burrice… e vou além, do desconhecimento. A ignorância está na base do preconceito. Essas vozes revisionistas e negacionistas infelizmente existem e não são poucas. O que precisamos é estimular o conhecimento, a educação, a leitura. Quanto mais sabemos, mais abertos e empáticos nos tornarmos. O que eu poderia dizer para essas pessoas? Creio que confrontá-las com o seu antissemitismo seria um ponto de partida importante.

GETTUB: Você já visitou Auschwitz pessoalmente. Uma pessoa conhecida minha, também fez essa viagem, mas, devido à carga emocional que o lugar levanta, ela não conseguiu ficar mais do que alguns minutos no interior do campo e teve que sair para não passar mal. O que pode descrever de sua experiência?

LUIZE: Visitar um campo de concentração é uma experiência, eu diria, sensorial. Auschwitz era um conjunto de três grandes campos e quase cinquenta subcampos. Tornou-se o campo-símbolo do Holocausto. Auschwitz-Birkenau, o campo II, era a fábrica de morte, o campo de extermínio efetivamente. Hoje, é uma área imensa e descampada, com uma floresta atrás. Apesar de os nazistas terem explodido e destruído boa parte do campo, inclusive os quatro crematórios, é impossível destruir a memória dos que ali sobreviveram e morreram. Ela está no ar, vive no ar. Por isso, talvez, a gente sinta toda uma carga emocional forte, que aperta o peito. Mas eu precisava justamente deixar esse aperto tomar conta de mim, para depois poder transmitir isso através dos meus personagens e da própria história que ia contar. Para mim, foi uma experiência essencial.

GETTUB: Em um dos trechos de SONATA EM AUSHWITZ, um dos personagens diz que Deus não estava presente no campo de extermínio. Você é uma pessoa religiosa? Se sim, como traduzir a frase do seu livro para alguém que tem fé? Se não, em que se agarra nos momentos de dificuldade?

LUIZE: Eu diria que não sou religiosa, no sentido de seguir os preceitos de uma religião. Mas sou uma pessoa de fé. Só que tem certos momentos que fazem a fé balançar. Acho que o Holocausto é um deles. O escritor Primo Levi, que esteve confinado em Auschwitz e tem, para mim, os mais contundentes relatos da barbárie lá vivida – é uma das minhas principais fontes – disse “Se Auschwitz existiu, Deus não pode existir”. Tenho personagens que concordam com ele.

GETTUB: Friedrich, em SONATA EM AUSHWITZ, é um capitão nazista que tem uma crise de consciência e arrisca sua carreira, sua família e sua vida para salvar uma mãe e um bebê judeus que não conhece, prisioneiros de um campo de extermínio. Ele é obra total da sua imaginação? Além do major Karl Plagge, um oficial nazista, e de Oskar Schindler, que fazia parte do Partido Nazi, que, juntos, salvaram milhares de judeus, chegou a ter contato com a história de outros heroicos dissidentes?

LUIZE: Friedrich é um personagem totalmente criado e pretendi, com ele, representar muitos anônimos que arriscaram as próprias vidas e famílias por discordarem da política do nazismo ou, como no caso específico do personagem, ao terem contato com as atrocidades e barbaridades ditadas pelos comandantes do Reich. No meu livro anterior, Uma praça em Antuérpia, retratei uma figura histórica real que salvou milhares de judeus e não judeus emitindo, na França, vistos para Portugal, país neutro: o cônsul português em Bordeaux, Aristides Sousa Mendes. Ele desafiou o ditador António Salazar e por causa de seus atos perdeu o cargo e acabou na miséria.

GETTUB: Para escrever SONATA EM AUSHWITZ, você conversou com uma sobrevivente do campo de extermínio que tem mais de cem anos de idade e que também ficou grávida, mas, ao contrário do livro, não conseguiu salvar a filha. Como foi a experiência de conhecer uma mulher com esse testemunho?

LUIZE: Foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida, não só por estar diante de uma mulher que foi vítima de tanta barbárie e falta de humanidade, como também por ter passado dos cem anos de vida. Estamos em dezembro de 2017 e dona Maria Yefremov está viva, com 103 anos de vida. É uma pessoa inspiradora, que perdeu toda a família no Holocausto (marido, pais, irmãos, sobrinho e a própria filha recém-nascida) e teve forças para se reerguer e contar tudo pelo que passou sem cobranças ou ódio e sim com o firme propósito de que esta história não se repita.

GETTUB: Amália, a personagem central de SONATA EM AUSHWITZ, é uma mulher decidida, que não recua até conseguir respostas para todas as perguntas sobre seu passado. O quanto você acha que o conhecimento de nossas origens pode moldar quem somos, ou quem seremos?

LUIZE: Eu diria que, além do conhecimento em si, do que acabamos por descobrir, a trajetória até chegar a este conhecimento é de fundamental importância. Aprendemos demais neste caminho – persistência, desprendimento, humildade – como se fôssemos nos moldando durante essa busca.

GETTUB: Suas histórias acontecem em meio a relatos verdadeiros da crueldade humana, acontecimentos que denigrem o homem como ser pensante racional, e muitos leitores não conseguem efetuar leituras desse tipo. Hoje em dia, é comum fugir do que traz conhecimento do sofrimento que outras pessoas já enfrentaram. O que diria para esses leitores que os pudesse convencer a entender o quão importante é manter em memória essa parte da história, independentemente do quão difícil ela possa ser?

LUIZE: Existe uma frase, do filósofo espanhol George Santayana, que cabe bem nesta resposta: “Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repetí-lo.” Eu procuro nos meus livros desenvolver uma espécie de literatura sensorial, bem visual, capaz de transmitir sensações, cheiros, identificações a partir das ações do cotidiano, tendo a História, com H maiúsculo, como pano de fundo. Acho que é uma forma de atrair o leitor para uma viagem que crie empatia e, mesmo sendo difícil e, muitas vezes, angustiante, o faça perseverar até a última página.

GETTUB: O mercado editorial brasileiro nunca esteve tão farto (positivamente) de obras de todos os gêneros. Somos ricos de opções, de excelentes obras, excelentes histórias, nacionais ou estrangeiras. Mas como é o mercado em Portugal? Existem diferenças na forma de um escritor conseguir publicar um livro no Brasil e em Portugal?

LUIZE: O caminho pelo qual cheguei ao mercado português foi através de minha agência literária, Villas-Boas & Moss (VBMlitag), que faz um belíssimo trabalho com autores nacionais fora do país. O público português tem sido bem receptivo ao meu trabalho – é o segundo livro que lanço lá, pela mesma editora, a Saída de Emergência. Aqui no Brasil, minha editora é a Record. Cabe lembrar que meus romances têm sempre uma ligação com Portugal, seja por tema ou personagens. No entanto, é sempre bom ressaltar que, para conquistarmos o mercado estrangeiro, é preciso estarmos, primeiramente, entre os mais lidos no nosso país. Os portugueses prestigiam e muito seus autores nativos.

GETTUB: Embora o número de leitores tenha aumentado nos últimos anos no Brasil, ele ainda é extremamente baixo. O que poderia dizer para um jovem que não tem hábito de ler?

LUIZE: Eu diria que a leitura proporciona viagens incríveis e é a base para o crescimento de qualquer indivíduo. Ler é conhecer e conhecer é poder! Poder alçar voos mais altos em tudo. A leitura, como você bem disse, é um hábito, assim como fazer exercícios físicos – pode dar preguiça de começar, mas logo a gente reconhece os benefícios e não quer parar mais. A leitura é exercício para o cérebro, para o espírito.

GETTUB: Por fim, SONATA EM AUSCHWITZ é uma prova de como existe literatura nacional atual de qualidade, que consegue conversar com o público jovem e o público adulto da mesma forma, em uma linguagem acessível e de fácil compreensão. Mas existem muitos leitores que fogem dos nacionais, principalmente devido à obrigação de terem lido clássicos na escola, numa idade em que ainda não conseguiam apreciar esse tipo de literatura. O que poderia dizer para essas pessoas que as convencesse a mudar de opinião e a lerem mais livros de autores nacionais?

LUIZE: O principal argumento que dou é o seguinte: ler um autor brasileiro é ler alguém que escreve em nossa própria língua, que se expressa como nós nos expressamos. O que pode ser melhor do que ler uma obra no seu estado original? No entanto, ainda existe muito preconceito em relação ao autor nacional, assim como tivemos, durante um longo tempo, preconceito em relação ao cinema nacional. Mas acredito que estamos no caminho de atrair o leitor para a nossa literatura. Os leitores mais curiosos vão percebendo a variedade de títulos, que existem livros além dos clássicos que foram obrigados a ler no período errado da vida (porque nossos clássicos são maravilhosos, mas temos de os ler na época certa). Isso prejudicou muito, associava-se livro brasileiro a leitura chata. Uma coisa muito positiva que já noto é que os jovens, hoje em dia, bem mais do que os adultos, vêm prestigiando primeiro os autores nacionais. Eles sabem que podem conhecer os autores, se comunicar com eles, trocar experiências e avaliações. E os jovens de hoje são os adultos de amanhã.

Se você ainda não leu nossa resenha do livro SONATA EM AUSCHWITZ, clique aqui para ler 😉