A história de TARDE DEMAIS é sobre três personagens: Sloan, Asa e Luke. Asa é um traficante que teve uma infância violenta nas mãos do pai esquizofrênico. Inclusive, ele herdou a doença do pai. Ele é instável, paranoico, ciumento, machista, dominador, egoísta, enfim, pense em tudo de ruim que uma pessoa pode ter e terá Asa. Sloan tem um irmão com um grau avançado de autismo que precisa de constantes cuidados médicos. Sozinhos no mundo, ela conta com o auxílio social do governo para custear a guarda do irmão. Ela conhece Asa, descobre que ele é traficante e se afasta. Logo depois, ela perde o benefício do governo. Não tendo a quem recorrer, ela aceita a ajuda financeira de Asa e passa a viver com ele. Luke é um policial que se infiltra na quadrilha de Asa disfarçado de traficante, com o objetivo de encontrar provas para prendê-lo. Sloam e Luke se apaixonam.

Apesar da sinopse acima, e vou contar alguns poucos spoliers, toda a narrativa de TARDE DEMAIS se concentra em uma coisa: estuprar Sloam. Existem cerca de dez trechos descrevendo sexo, e em apenas um deles, Sloam faz de forma consentida. Todos os outros, ela é abusada. Inclusive, no último, ela está grávida. O livro é composto por 380 páginas, e em nenhuma, a autora faz Sloam ter alguma atitude. Em toda a história, Sloam é uma marionete que sofre as mais absurdas e violentas situações de forma submissa. Após o fim da história, existe um epílogo onde Sloam sofre novo ataque. Após o epílogo, existe um prólogo onde é contado quando Sloam foi estuprada pela primeira vez. Após esse prólogo, vem um epílogo do epílogo (sim, isso mesmo, escrito dessa forma), onde Sloam é novamente estuprada.

A primeira página de TARDE DEMAIS, é um texto da autora contando que escreveu a história em uma plataforma gratuita durante bloqueios criativos. Segundo as palavras dela:

É mórbido, é perverso, e era uma válvula de escape divertida quando eu ficava empacada em outro livro…

Bem, não sei bem o que a autora chama de divertido sobre colocar uma mulher sendo violentada por 380 páginas sem reação. Minha ideia de diversão é bem diferente. Ela continua explicando que escrevia diariamente os capítulos nessa plataforma e recebia o retorno dos leitores na mesma velocidade. Por isso, ela fez vários epílogos, ela não conseguia parar. Sim, esse é uma das grandes doenças dos nossos dias: visualizações. A pessoa escreve algo que gera acessos, e resolve repetir a mesma situação no capítulo seguinte, e no seguinte, e no seguinte, independentemente do quão absurdo seja. O mesmo acontece com livros que contam sobre algum tipo de violência e conseguem um bom número de vendas: o autor repete o enredo, trocando apenas algumas coisas.

Esta semana, foi descoberto um vídeo de um youtuber famoso, onde ele conta que a namorada não queria fazer sexo com ele, que ele esperou ela dormir e consumou o ato enquanto ela estava inconsciente. Ou seja, como ele a estuprou. Logo no dia seguinte, ele publicou outro vídeo, dizendo que era uma história inventada, que não aconteceu. Independentemente de ser verdade ou não, o fato é que enquanto ele contava, vários amigos que ouviam, riam e achavam normal. E muitos comentários de fãs, defendiam que ela era namorada dele, que ele não fez nada de errado. Essa ideia deturpada, machista, de que sexo para ser consentido, basta a pessoa não se pronunciar, estando ou não consciente, é a ideia que TARDE DEMAIS passa.

Quando Sloam conhece Asa, e os dois saem em um encontro, Asa força Sloam a transar com ele usando de violência psicológica. Como é isso? Ela é inexperiente, nunca saiu com um homem. Ele é charmoso, bonito, fala coisas românticas que ela precisa ouvir. Ele começa com toques que despertam nela o prazer sexual. Mas ela não quer transar tão rápido. Ele aceita, e quando ela adormece, ele a estimula. Quando ela acorda, ele já está transando com ela. Ela tem medo de interromper, ela acha que é normal. Então ela aceita e tenta aproveitar. Isso é estupro. Mas seria uma narrativa válida para demonstrar como muitas garotas são enganadas por machos escrotos abusadores, se a autora tivesse a capacidade de escrever ensinando. O que não acontece. Toda a descrição do ocorrido, deixa claro que Sloam, apesar de tudo, gostou. Sim, isso mesmo: ela é virgem; saiu pela primeira vez com um garoto; disse que não queria fazer sexo; ele faz assim mesmo, enquanto ela dorme; ele é violento durante o ato final, chegando a machucá-la; e no fim, ela diz que era disso que ela precisava, ela diz que gostou. Então, exatamente que tipo de mensagem é passada aqui? Que tipo de lição garotas novas irão absorver do que leram? Que sexo forçado, se elas aproveitarem, é válido.

Depois que perde os benefícios do governo para tratar o irmão, de uma forma tão óbvia que qualquer idiota saberia o motivo dela perder, Sloam aceita o dinheiro de Asa e vai morar com ele. Nos dois anos seguintes, ela começa a ser abusada, mas mesmo assim ela aceita, porque sabe que se for embora, não terá como tratar do irmão. O primeiro capítulo de TARDE DEMAIS, começa com ela acordando, de novo, com Asa fazendo sexo com ela. Sloam não quer, mas não reclama, só torce para ele acabar logo, para ela poder tomar um banho e ir para a faculdade. Ser estuprada virou algo corriqueiro para ela. E nessa mesma página, no mesmo parágrafo em que ela diz que só o suporta pelo dinheiro, ela também diz que o ama.

Indo mais a fundo, Sloam aceita todo o abuso físico e emocional de Asa em troca da ajuda ao irmão. Certo, vamos esquecer todas as outras formas que ela poderia conseguir a mesma coisa sem ter que se sujeitar a isso. Vamos acreditar que ela realmente não teria outra saída. Sloam, então, está abandonando sua dignidade, está abandonando qualquer traço de humanidade, para suprir a necessidade emocional e sexual de um homem cruel em troca do bem-estar da pessoa que ela mais ama, o irmão. Louvável. De verdade. Então, entra em cena Luke. E aí, mesmo sabendo como Asa é ciumento e violento, mesmo sabendo que ela pode perder a ajuda que Asa dá, mesmo depois dela suportar dois anos de abusos, ela arrisca tudo por causa de um tesão que sente por Luke, um macho, que ela acabou de conhecer.

Aí você, que já leu o livro, diz que ela se apaixonou por ele e que viu nele uma forma de conseguir ajuda para sair daquela vida. Não. Leia direito. Quando ela conhece Luke, e os dois começam a flertar e a saírem juntos às escondidas de Asa, ela pensa que Luke é um traficante, não sabe que ele é um policial disfarçado. Então, por favor, não arrume desculpas para uma narrativa cheia de falhas, que transformar o sexo feminino em um pedaço de carne que não pensa e que só serve para sexo.

E não estou exagerando. Sloam poderia ter sido criada para demonstrar como uma mulher é forte, como ela pode se sujeitar às piores atrocidades (como a de ter a aliança de noivado colada no dedo por Asa, para que não a perca), como ela consegue passar por cima de tudo para ajudar quem ama e, mesmo assim, vencer e sair por cima. Sloam poderia representar muita coisa nas mãos de alguém hábil no tratamento de causas sensíveis e importantes. Não é o caso. Sloam nunca tem uma atitude, ela aceita tudo com resignação, e em todos, todos os momentos em que ela está em perigo, quem a ajuda é um macho. A única coisa que Sloam faz, sempre que corre perigo, com perdão do termo chulo, é abrir as pernas. Essa é a força feminina que a autora descreve no livro: dar para um homem como forma de se salvar.

Novamente, você, fã, pode dizer que TARDE DEMAIS é uma exceção, tanto que a própria autora diz que a história não se parece em nada com seus outros livros. Sinto, mas não é verdade. Nos livros O LADO FEIO DO AMOR, ela já faz isso; em É ASSIM QUE ACABA, ela justifica o abuso doméstico e faz a personagem principal sentir pena do abusador; em TALVEZ UM DIA, ela justifica a traição. E esses são apenas os livros que já li dela. Tenho medo do que encontraria nos outros.

Para finalizar, e aproveitando o que disse acima sobre sentir pena do abusador, isso acontece novamente em TARDE DEMAIS. Nas páginas finais, no epílogo do epílogo, acontecem duas novas atrocidades: a primeira, quando Sloam e Luke sentem pena de Asa, mesmo depois de tudo o que ele fez, de tudo o que Sloam sofreu; e segundo, a autora simplesmente passa uma informação totalmente errada sobre a doença séria que é a esquizofrenia. O filho de Sloam pode ser de Asa, mas Sloam e Luke não querem saber de certeza se é, porque acham que não importa. Esquizofrenia é uma doença mental hereditária. É claro que importa. É importante divulgar que filhos, cujo um dos pais tenha essa doença, precisam de ser acompanhado pelo resto da vida. Mas nem isso é informado.

Existe algo que se chama responsabilidade literária, ou responsabilidade do autor. Quando se escreve uma história, e alguém lê essa história, algo é ensinado. A pessoa que leu, não será a mesma de antes da leitura, seja em qual grau for. O autor é, diretamente, um influenciador. Ele tem responsabilidade sobre aquilo que escreve. Em um momento como o que vivemos hoje em dia, quando, finalmente, através de muita luta, e em comparação com o passado sombrio, os direitos femininos estão cada vez mais perto dos direitos masculinos, vem um livro desses e passa a mensagem de que a mulher não tem qualquer empoderamento, a não ser através do sexo.

Essa é a mensagem que o livro passa, e que uma legião de fãs, mulheres, idolatram. TARDE DEMAIS não é apenas um livro ruim. Vai muito além do ruim. É ofensivo! É repugnante! É uma vergonha literária! E se você leu e gostou, sugiro que procure um analista para tentar compreender o motivo desse livro ser tão prejudicial. Leia este post, ANÁLISE É ESSENCIAL, NÃO SEJA PRECONCEITUOSO, que você terá mais informações.


AVALIAÇÃO:


AUTORA: Colleen HOOVER nasceu 11 de dezembro de 1979, em Sulphur Springs, Texas. Ela cresceu em Saltillo, Texas, e formou-se a partir de Saltillo High School, em 1998. Em 2000, ela se casou com Heath Hoover, com quem ela já tem três filhos e um porco chamado Sailor. Colleen se formou na Texas A&M University-Commerce com uma licenciatura em Serviço Social. Ela trabalhou com vários projetos de ação social e de ensino, até começar sua carreira como escritora.
TRADUÇÃO: Alda LIMA
EDITORA: Record
PUBLICAÇÃO: 2018
PÁGINAS: 380


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