O que define você como pessoa, o que define seu caráter, não é o que você diz, mas o que você faz. Aquela máxima, “falar é fácil”, está corretíssima. A menos que o que você diga, faça acontecer algo, seja seguido de uma ação que corrobora o dito, as palavras se perdem ao vento. E é ação, atitude, coragem, comprometimento, obstinação, compaixão, amor, que você encontra nas quinze histórias, das quinze mulheres, das quinze gigantes, que compõem OUSADAS, uma HQ cujo título não faz jus ao que essas personagens reais enfrentaram. Elas não foram apenas ousadas, elas foram impossíveis!

O conteúdo de OUSADAS saiu primeiro na Internet, no blog da autora, o Les Culottées, que você acessa aqui, e que fica hospedado no site Le Monde. Dê um pulo lá que você encontrará muitas outras tiras mais atuais e que também já foram publicadas, ou serão.

Abaixo, escrevo um pouquinho, bem pouquinho, de nove das quinze mulheres presentes em OUSADAS. Por que só um pouquinho? Por que só nove? Porque os melhores detalhes, as melhores informações, os desenhos sarcásticos, você vai ler e vai ver quando comprar a HQ, e você vai comprar essa HQ 😛

 

NZINGA – RAINHA DO NDONGO E DA MATAMBA

Ndongo e Matamba foram estados pré-coloniais no que hoje é Angola, um dos maiores países da África, e também, para quem não sabe, foi onde eu nasci. Nzinga nasceu em 1583, uma das filhas do rei Kiluanji, e tornou-se sua favorita por ter se mostrado uma guerreira ainda dentro do ventre da mãe: ela estava com o cordão umbilical enrolado no pescoço. Aos dezesseis anos, devido à sua esperteza e iniciativa, foi encarregada das negociações com os invasores portugueses. Ela participou de guerras, quando apenas homens lutavam, assumiu o lugar do pai morto e do irmão assassinado, tornando-se rainha, e proclamou que não haveria um rei. Foi conhecida por, literalmente, arrancar o couro dos portugueses e liderou seu povo por mais de quarenta anos, até morrer aos 80 anos, depois de conquistar a paz com Portugal. Existe uma estátua em sua homenagem em Luanda, a capital de Angola.

 

LAS MARIPOSAS – IRMÃS REBELDES

Minerva, Patria e Maria Teresa foram três de quatro irmãs que se engajaram em grupos revolucionários da República Dominicana. Minerva foi cortejada pelo ditador da época, El Jefe (O Chefe), mas sempre fugiu de suas investidas. Óbvio que teve consequências. Ainda mais quando ela e as outras duas irmãs começam a luta política para depor o ditador. Elas são presas, torturadas, efetuam atos públicos, dedicam a vida para a liberdade do povo. Você conhece alguns de seus principais atos na HQ, inclusive como elas terminaram seus dias. Nesta parte não posso contar mais, seria spoiler. Mas vale dizer que a importância delas foi tanta, que hoje, uma região do país ganhou o nome delas e existe um dia de feriado nacional para comemorar seus feitos.

 

JOSEPHINA VAN GORKUM – APAIXOND TEIMOSA

Josephina nasceu em 1820, na Holanda, e era de uma família de aristocratas católicos. Ela se apaixonou por Jacob Werner van Gorkum, um homem dez anos mais velho e militar, o que não foi do agrado dos pais dela. Mas o pior: ele era protestante. Mesmo assim, eles se casam, indo contra a sociedade da época, que se regia sobre a Pilarização, uma segregação consentida pelo rei Guilherme I, onde definia que cada religião possuía suas próprias regras separadas das restantes e não poderiam se misturar. Ou seja, o casamento dos dois foi um escândalo. Mas eles sabiam que não seriam enterrados juntos, porque não permitiriam. Então, na velhice, ainda com seu amor, Josephina encontrou a solução para conseguir ser enterrada junto com o homem que amava. Como? Vai ter que ler para saber!

 

DELIA AKELEY – EXPLORADORA

Delia nasceu em 1875 e era a caçula de nove filhos de uma família irlandesa. Ela se casou em Chicado, EUA, com um renomado empalhador, Carl E. Akeley, responsável pela execução dos famosos dioramas do Museu de História Natural de Nova York. Delia segui o marido em suas excursões africanas por anos, e em diversas ocasiões, salvou a vida dele. Como, por exemplo, quando ele foi atacado por um elefante selvagem e toda a equipe debanda. Sozinha, ela carregou Carl através das montanhas do Quênia, até conseguir voltar para a civilização e para um hospital. E sabe o que ele faz alguns anos depois? Carl se separa e casa com outra mulher, esta quase vinte e cinco anos mais nova. Delia decide então empreender suas próprias excursões e se torna uma das mais famosas e conhecidas primatólogas do mundo, com seu livro sobre o macaco africano. Já sabe, né? Para saber como ela fez isso, só lendo a HQ.

 

JOSÉPHINE BAKER – DANÇARINA, MÃE DE FAMÍLIA E MEMBRO DA RESISTÊNCIA

Joséphine nasceu em 1906, na cidade de St. Louis, e era negra, em uma época em que negros não tinham praticamente nenhum direito. É difícil falar sobre ela, porque sua vida é cheia de reviravoltas, e não quero estragar as surpresas. Só vou dizer que ela foi de dançaria, passando por uma rebelde na época da ocupação nazista na França e foi enterrada, depois de muitos anos realizando atos incríveis, com uma cerimônia na cidade de Mônaco, foi honrada pelo exército francês e recebeu coroas de flores do mundo inteiro. Leia, você irá chorar.

 

TOVE JANSSON – PINTORA E CRIADORA DE TROLLS

Tove nasceu em 1914, na cidade de Helsinki. Ela foi uma das artistas mais famosas do mundo ao criar seus personagens de livros ilustrados infantis, os Moomins, uma família de trolls bonzinhos que vendeu mais de quinze milhões de exemplares no mundo todo, além de filmes e brinquedos. Eram tão famosos, que Walt Disney fez uma oferta de compra. Mas sabem o que ela fez? Abandonou tudo pelo amor de uma mulher, uma outra artista finlandesa, Tuulikki Pietila. Claro que foi um escândalo para a época, então ela compra uma casa em uma pequena ilha e se muda para lá com a esposa. O que acontece então? Leia…

 

AGNODICE – GINECOLOGISTA

Agnodice nasceu em 350 a.C. e é uma das mulheres mais incríveis de quem já ouvi falar. Não apenas pelo que ela fez, para pela época em que fez. Em Atenas, apenas homens podiam efetuar partos. O índice de insucessos, de mortes durante o processo, era altíssimo. Mas as mulheres eram proibidas de aprender medicina. Então, Agnodice fugiu e foi estudar no Egito, onde as mulheres aprendiam a profissão de médico. Depois de se formar, ela voltou para a Grécia, se disfarçou de homem e passou a fazer partos, com grande sucesso. Tanto, que todas as grávidas passaram a procurá-la. Com inveja, os outros médicos a acusam de abusar das pacientes, o que é desmentido por ela no tribunal, quando ela se revela uma mulher. A revolta foi maior e a condenam a morte. Mas ela não morre. Algo acontece que impede isso. Leiam para saber o quê…

 

LEYMAH GBOWEE – TRABALHADORA SOCIAL

Leymah nasceu em 1972, na cidade de Monróvia, capital da Libéria, e ainda está bem viva entre nós. Seu apelido era Red, por sua pele negra ser um pouco mais clara do que a do resto da família. Não vou citar aqui as coisas pelas quais ela passou, porque são muitas e terríveis, e a maior parte nas mãos do marido abusador. Mas ela venceu, tornou-se uma das pessoas mais importantes do trabalho social da Unicef, colocou as mulheres no cerne das negociações de paz com a WIPNET, Women Peacebuilding Network, entre muitos outros feitos, e recebeu o Nobel da Paz em 2011. É simplesmente assombroso o que Leymah viveu, como viveu e como superou tudo até ser quem ela é hoje. Leia, por favor, leia!

 

WU ZETIAN – IMPERATRIZ

A última mulher de quem vou escrever, é a Wu Zetian, que nasceu na China, no ano de 624, e tornou-se concubina do imperador Tai Zong. Devido à sua inteligência, ao saber escrever e cinco línguas diferentes, e à esperteza em negociações, ela consegue se destacar e vira secretária de Tai Zong. Daí em diante, começa uma sucessão de acontecimentos tão incríveis, que a tornam a primeira e única imperatriz da China, contra tudo e contra todos. Ela ficou apenas quinze anos no poder, até morrer com oitenta e um anos, mas o período em que ficou, é considerado um dos mais prósperos da China sobre vários aspectos: paz, artes, progresso social, entre outros. É incrível o que essa mulher fez.

 

Bem, claro que tudo o que escrevi de cada uma dessas personagens é apenas uma pequena parte do que você encontra em OUSADAS. Pulei os melhores fatos, que você terá um enorme prazer ao ler e conhecer. E não falei de outras tão incríveis quanto as nove acima, como Clémentine Delait, a mulher barbada; ou Margaret Hamilton, a atriz que fez de bruxa no filme O Mágico de Oz e que teve parte do corpo queimado durante as filmagens, mas que, mesmo assim, se tornou uma diva do cinema; ou Lozen, uma guerreira índia xamã do oeste americano.

OUSADAS é uma HQ emocionante, com histórias reais, de mulheres heroínas, únicas, que demonstraram o quanto vale o ser humano quando ele possui ideais e caráter. Uma leitura única, indispensável. Não deixe de ler!


AVALIAÇÃO:


AUTORA: Pénélope BAGIEU nasceu em Paris, em 1982. Estudou cinema de animação na Ensad e fez uma passagem pela Central Saint Martins de Londres. De volta a Paris, cria em 2007 o Ma vie est tout à fait fascinante [Minha vida é realmente fascinante], um blog ilustrado no qual expõe sua vida cotidiana com um humor e uma graça que acertam no alvo. Com a publicação do blog em forma de livro, seu sucesso se expande para as livrarias, e Pénélope passa a fazer diversas ilustrações editoriais, trabalha para grandes campanhas publicitárias, desenha as aventuras de Joséphine e assina até uma coleção de lingerie. Em todos os trabalhos, Bagieu tem sempre uma maneira muito pessoal de dialogar com sua época sem se deixar enganar por ela. Uma morte horrível é sua primeira narrativa longa.
TRADUÇÃO: Fernando SCHEIBE
EDITORA: Nemo
PUBLICAÇÃO: 2018
PÁGINAS: 144


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