Eu não conhecia o Gabriel, até que a Companhia das Letras me enviou o livro dele. Confesso que fiquei receoso, porque não é fácil escrever terror. Para uma história desse gênero ter um efeito positivo no leitor, ela pode seguir duas direções: a primeira, conseguir incutir medo em quem lê; a segunda, conseguir criar uma ação que convença o leitor, mesmo que absurda. DEUSES CAÍDOS se encaixa na segunda direção. A história não mete medo, mas narra situações que prendem a atenção do leitor e o fazem acreditar no mais variado tipo de montros. E o que confirma essa crença, é o fato de que o leitor teme pela vida dos personagens. O livro falharia miseravelmente se não conseguisse isso. Felizmente, consegue, e com louvor.

Então, da mesma forma que eu não conhecia do Gabriel, acredito que muitos de vocês também não conhecem. Por isso, fiz esta pequena entrevista com ele, onde poderemos conhecer um pouquinho mais de como ele pensa, do que ele gosta. E se você ainda não leu a resenha de DEUSES CAÍDOS, é só clicar aqui para ler 😉

ENTREVISTA

GETTUB: Quem é Gabriel Tennyson?

G. TENNYSON: Um suburbano carioca que gosta de escrever para o povão, seja em romances ou crônicas de humor no facebook. Levanto a bandeira de que é possível combinar entretenimento com crítica social sem induzir catalepsia no público. Não existe nada mais anal retentivo do que um autor arrotando erudição para se exibir. Eu adoraria que nossa literatura fantástica se tornasse tão popular quanto Zeca Pagodinho e pudesse ser exportada com nossa identidade. Temos um folclore muito rico que precisa ser reinventado e apresentado ao público internacional. Tentei fazer um pouco disso em Deuses Caídos para fugir de nossa síndrome de vira-latas, mas não sei se consegui. Esse julgamento pertence ao leitor. Na era do streaming e do videogame, a literatura precisa se comunicar melhor com o leitor, derrubar o mito de que é um hábito de intelectuais e acadêmicos. No fundo, o objetivo dessas mídias modernas é o mesmo: contar histórias. Muda-se a tecnologia, o veículo, mas o ser humano continua apaixonado por fantasia e horror. As histórias sobrenaturais provavelmente foram as primeiras que nossos ancestrais contaram ao redor das fogueiras. Se analisarmos profundamente, todas as religiões possuem um elemento de horror e fantasia: tortura eterna, demônios, milagres. A história de Cristo é um arquétipo que serviu de base para personagens icônicos como o Superman, Luke Skywalker, Neo de Matrix, etc.

GETTUB: Você tem dois cães que se chamam Kripto e Ravena; Cipriano, o personagem principal de DEUSES CAÍDOS, é baseado em Constantine. Posso dizer que você prefere a DC do que a MARVEL? Ou tanto faz, o que importa são as HQs e as boas histórias?

G. TENNYSON: Eu gosto de ambas por motivos diferentes. A DC sempre foi mais ousada para tocar em temas adultos e sombrios, mas falha em aproximar seus personagens do homem comum, talvez por possuir uma escala de poder que transforma seus heróis em deuses modernos. A Marvel, por outro lado, mostra um lado humano mais desenvolvido. Você consegue se divertir com Peter Parker e com o Homem Aranha, enquanto Bruce Wayne jamais é o Batman. A identidade secreta do morcego é apenas um acessório.

GETTUB: Começou a ler HQs ou livros? Qual sua primeira HQ e qual seu primeiro livro?

G. TENNYSON: Comecei com HQ. Minha primeira foi Superamigos número 9, em mil novecentos e Ricky Martin nos Menudos. Lembro que tinha o Batman e os Renegados na capa. Meu primeiro livro foi Memórias de um cabo de vassoura, de Orígenes Lessa. Como estava habituado a ler sobre caras como o Hulk e o Surfista Prateado, as aventuras de um futuro móvel das Casas Bahia não me agradou muito.

GETTUB: Qual seu livro de terror favorito? E filme? E série?

G. TENNYSON: É difícil escolher um livro favorito, mas o último romance de Horror que me impactou por sua temática e originalidade, foi Deixa ela entrar, de John Ajvide. Acho que meus filmes de horror favoritos continuam sendo Hellraiser, O Exorcista, Evil Dead ( original) e A Mosca. Tenho uma tendência ao bodyhorror e escatologia, mas também adoro um horror mais clássico, como Os Outros, O Iluminado e O Bebê de Rosemary. O primeiro Jogos Mortais é muito bom, mas se transformou numa franquia de miojo temperado com tripas. Atualmente não vejo nenhuma série de horror e continuo órfão de algo tão sensacional quanto Breaking Bad.

GETTUB: Em uma adaptação para o cinema, qual ator nacional vê como Cipriano? E como Júlia?

G. TENNYSON: Eu não vejo Cipriano como um galã típico. Acho que o saudoso Domingos Montagner daria um ótimo Cipriano na tela, mas infelizmente ele faleceu. A Júlia eu ainda não pensei, mas gostaria que fosse alguém fora dos padrões de novela. Aceito sugestões.

GETTUB: Eu faço sempre uma pesquisa anual no blog, para saber a preferência de meu público, e em todas que fiz até hoje, o gênero terror é o menos apreciado. É necessária coragem para escrever sobre monstros, demônios, fantasmas, para um público mais seleto, ou apenas paixão?

G. TENNYSON: Acho que muito do preconceito com horror vem da ideia que o livro precisa gerar medo, mas isso, além de ser muito difícil, não é uma verdade absoluta. O horror é o gênero que usamos para falar de assuntos tabus, o tipo de papo que não podemos ter na mesa do jantar. Não dá para escrever uma boa história de horror sem causar algum incômodo na sociedade e isso exige um pouco de coragem, sobretudo em nossos tempos moralistas. A literatura de horror tem algo que nenhum outro gênero tem: ela pode acontecer em qualquer lugar, qualquer época e com qualquer um. Não está aprisionada em convenções e frequentemente se infiltra em outras áreas. Quem pode dizer que os Espectros do Anel, de Tolkien não possui um elemento de horror? Ou a série Black Mirror que é estruturalmente uma ficção científica? Na verdade, o público consome horror em tudo, mas não se deu conta disso. Particularmente, eu classifico Deuses Caídos como uma fantasia urbana, mas o horror está presente nas cenas mais chocantes e na estética de algumas criaturas.

GETTUB: Você utiliza muitos elementos religiosos, não apenas católicos, mas de outras religiões. Alguns deles pouco conhecidos, mais restritos a estudiosos. Você é um homem religioso, ou apenas de fé? Se for religioso, como é trabalhar ficção com símbolos sagrados? Se não for, enfrenta algum tipo de crítica?

G. TENNYSON: Eu sou agnóstico, mas fui católico e evangélico por pressão familiar. Quando escrevi Deuses Caídos, imaginei que sofreria ataques de fundamentalistas, mas nada disso ocorreu. Acho que mesmos os mais religiosos entenderam que o alvo do livro não é a crença, mas a hipocrisia de certos líderes da igreja.

GETTUB: No fim de DEUSES CAÍDOS, com cuidado para não soltar spoilers, você faz algo corajoso com uma das personagens secundárias, algo que muitos autores não teriam coragem de fazer. Teve dúvidas sobre se deveria ou não?

G. TENNYSON: Em nenhum momento. Os finais de livros e filmes que nos marcam jamais são doces. Ninguém esquece jamais os finais de Seven ou O Nevoeiro. Acho que a história caminhou de um jeito que aquele seria o único final plausível. A editora queria um final mais otimista, mas eu sou capricorniano e bati o pé ( risos).

GETTUB: A forma como vilão escolhe se a vítima irá morrer ou não, é através de vídeos no Youtube, onde o público é o juiz. Hoje, a Internet tem esse papel, de julgar e condenar todo o tipo de situação, e muitas vezes com o mesmo ódio irracional que seu vilão. Como acha que podemos fugir desse caminho?

G. TENNYSON: Não sei se existe uma solução para essa polarização nas redes, mas, se você reparar, os algoritmos do facebook e do youtube facilitam essa radicalização. Experimente, por exemplo, clicar em um vídeo de política. O youtube vai começar a te recomendar vídeos do mesmo espectro político e cada vez opiniões mais radicais. Quando você perceber, já está preso em uma bolha ideológica, sofrendo dissonância cognitiva.

GETTUB: A sua narrativa descritiva das criaturas e dos trechos de ação, são muito bem elaboradas em termos de clareza. Fica fácil para o leitor conseguir imaginar o que está acontecendo, ou como determinado monstou ou demônio se parece. Você utiliza figuras como base, ou é tudo da imaginação?

G. TENNYSON: Todas as criaturas em Deuses Caídos possuem uma simbologia em sua aparência. Eu sempre crio os monstros como uma representação de um tema, uma espécie de poesia grotesca visual saída de minha mente maluca ( risos).

GETTUB: Como é ter seu livro em um selo da Companhia das Letras que tem obras de Stephen King, Philip K. Dick, H. G. Wells e Shirley Jackson? Saiu pela rua gritando de braços abertos?

G. TENNYSON: Quando recebi a notícia eu estava entre um sovaco e o isopor de um ambulante, dentro de um ônibus lotado no Engenho Novo. Não deu para fazer muita coisa além de respirar. Ter uma editora como a Cia nos faz criar uma visão maior do que nosso umbigo autoral. A minha editora trabalhou profundamente na obra, algo cada vez mais raro hoje em dia. Eu aprendi muito nesse processo. Um romance é um trabalho em equipe. Já peguei livros para ler que não estavam prontos para publicação. Isso me fez pensar o quanto tive sorte de ter uma editora tão exigente antes de colocar Deuses Caídos na prateleira.

GETTUB: Parece incrível, mas a literatura nacional, em pleno 2018, ainda sofre muito preconceito. Eu mesmo conheço dezenas de pessoas que se recusam a ler livros nacionais. Ainda mais de terror. O que poderia dizer para essas pessoas?

G. TENNYSON: Eu compreendo que somos bombardeados por literatura angloamericana no gênero fantástico. É natural que as primeiras tentativas no Brasil tentassem emular esses modelos, mas existe uma nova geração de autores bem competentes dispostos a dar uma cara nova à ficção especulativa nacional. Essa é uma oportunidade de ler algo diferente e de criar universos fora do pastiche. Os bons autores cedo ou tarde vão quebrar esse preconceito. Outros vão insistir no erro e perder público. O leitor também evolui. Se os escritores não acompanharem essa evolução, viverão da glória pretérita sem emplacar nada novo. Na verdade, isso já está acontecendo com alguns autores da primeira geração da literatura fantástica. Esse preconceito não é de todo injustificado, mas, como nossa literatura fantástica ainda é um bebê, ela vai tropeçar um pouco antes de caminhar com as próprias pernas.

É isso, espero que tenham gostado de conhecer um pouco mais do autor 😉