Uma das coisas que mais me agradou em UMA NOITE E A VIDA, foi a feliz constatação de que ainda se escrevem romances de onde se podem tirar mensagens otimistas, educativas, que indicam um possível caminho para a felicidade, independentemente dos obstáculos enfrentados. Todo o enredo é bem construído, coerente com os personagens, que, por sua vez, representam pessoas que poderiam ser reais, ou melhor, que são reais, porque você, leitor, poderia facilmente encontrar um deles em algum momento. Junta-se a isso, uma escrita cativante, simples, intimista, amigável. O resultado não poderia ser melhor. Então, trago para vocês, uma pequena entrevista com a Chris Melo, autora nacional, com varios livros publicados e à espera de serem lidos. E se ainda não passaram pela resenha de UMA NOITE E A VIDA, só clicar aqui para lerem!

ENTREVISTA

GETTUB: Como surgiram Virgínia e Caio? Eles foram baseados em pessoas conhecidas, ou são totalmente fruto da sua imaginação?

CHRIS MELO: É impossível dizer que escrevemos apenas ficção. Muitas pessoas e fatos nascem na realidade. No entanto é importante dizer que, cada livro ganha sua própria dimensão e que Caio, Virgínia e tantos outros construíram sua existência de forma única dentro daquele contexto que só pertencem a eles. Portanto, posso afirmar que detalhes nascem na realidade, mas o todo se sobrepõe a qualquer inspiração.

GETTUB: Virgínia e Caio não vivem aquele amor idílico, mas um amor mais comum ao que conhecemos na vida real, onde existem erros e acertos, e onde não há garantias do para sempre. Você acredita que possa existir esse amor dos contos de fadas, o amor perfeito e eterno?

CHRIS MELO: Somos mais de sete bilhões de pessoas no mundo, querer enquadrar todos estes seres em um único modelo de vida é um grande erro. Há amores como os de Caio e Virgínia e esses podem até serem os mais comuns, mas é impossível dizer que não existem outros tipos. Seria raso pensar que todos os seres humanos se relacionam de uma única maneira. Estou certa de que há relacionamentos mais sérios ou mais engraçados, polígamos e também assexuados, outros que se sustentam em amizade, outros no sexo. E se há tantas formas, por que não haveria o mais romântico? Conto histórias sobre gente. Pessoas diversas, que vivem e pensam de maneiras distintas. Falo de amor, de todos os possíveis e acredito em todos eles.

GETTUB: Hoje, mais do que antes, existe a discussão da legalidade do aborto. Nessa questão, existem dois pontos distintos que a maioria das pessoas ignora: o primeiro, sobre legalidade, e isso significa que a mulher tem o direito de decidir sobre o que acontece no próprio corpo; o segundo, sobre humanidade, que discute se é justo interromper uma gestação, e dentro de que parâmetros é justo. Virgínia passa por essa escolha. Qual sua visão sobre essa escolha da personagem aplicada na vida real?

CHRIS MELO: Entendo que haja dois pontos e é importante deixar isso claro: crença e legalidade. São essas duas coisas que definem a questão (tantas questões). No âmbito da crença não se toca, cada um possui plena liberdade de credo e de levar a vida baseada em seus preceitos. Ponto, sem discussão. Sobre legalidade por outro lado, é importante discutir e pensar enquanto coletivo, pensar em necessidades que existem muito longe do nosso umbigo. A legalização do aborto é uma questão de saúde pública e isso nada tem a ver com nossas questões pessoais, no que julgamos certo ou errado ou nas decisões que cabem na exclusividade do indivíduo. Virgínia precisou escolher e, dentro de suas particularidades, fez o que achou que seria menos danoso para si e para todos os envolvidos. Atente para a palavra menos, pois, no fim, não há escolha que te isente completamente.

GETTUB: De certa forma, Virgínia e Caio parecem destinados a ficarem juntos, independentemente das escolhas que façam. Você acredita em destino, coincidência ou em algum plano divino superior que determina, ou influencia, nossas vidas?

CHRIS MELO: Não tenho certeza sobre isso, mas gosto de especular. As incertezas servem de engrenagem para a minha cabeça de escritora. Brinco com as possibilidades, tento entender esse mistério que é viver e conviver. Quando o assunto é destino sempre dou um exemplo que define bem o que eu acredito: digamos que está em seu destino um acidente de carro. Vai acontecer, você precisa dessa experiência, não pode fugir dela, é impossível evitar. Mas você tem o livre arbítrio, por isso, você tem a opção de usar o cinto de segurança ou não, de andar dentro da velocidade permitida ou não, de dirigir embriagado ou não. É assim que vejo, destino e escolhas andam juntos, mas nossas decisões é que determinam os desdobramentos de cada evento.

GETTUB: Virgínia precisa lidar com a violência e o machismo do ex-namorado. Apesar de estarmos em 2018, o abuso contra a mulher ainda é gigantesco, absurdo. Como pensa que os pais podem ensinar seus filhos, homens, a crescerem com a compreensão da igualdade e do respeito para com mulheres?

CHRIS MELO: São anos de submissão, séculos enxergando com normalidade os abusos sofridos por mulheres. Infelizmente, não conheço nenhuma mulher que não tenha sofrido algum tipo de violência e isso é realmente inaceitável. Por todo esse tempo de história e repetição do comportamento ainda nos tempos de hoje, o processo de melhoria parece tão lento e difícil, mas é preciso persistir, resistir. Educar é a coisa mais difícil, mais eficaz e também a mais perigosa, é preciso, primeiramente, se comprometer. Manter autoavaliação contínua, humildade extrema e disposição em quebrar paradigmas. É preciso sair do automático, cortar velhas frases e ter muita coragem. Afinal, neste mundo repleto de pessoas preconceituosas, misóginas e tiranas, criar alguém sensível, empático, gentil e huma no, é amedrontador, eu sei. Mas é preciso ter fé no bom e no bem e jamais esquecer de que nossa responsabilidade não é apenas com os nossos filhos e sim com todas as pessoas que cruzarão o caminho deles.

GETTUB: Tenho uma pergunta que sempre faço a autores nacionais, que é sobre a escolha de livros clássicos nas escolas. Hoje, existe uma vasta literatura nacional que trata de assuntos importantes para os jovens de forma mais clara e mais compreensível, com uma narrativa que consegue conversar com esses leitores. A maioria dos clássicos não conquista e não se comunica, porque a idade dos leitores pede outro tipo de literatura. Qual sua opinião sobre isso?

CHRIS MELO: Os clássicos não escolheram estar nesta classificação. É preciso entender o motivo de eles estarem até hoje nas listas de leitura: Arte. Eles resistiram ao tempo, foram capazes de conversar com muitas gerações e falam do que não envelhece. Além disso, livros também retratam a história de sua época, de como vivíamos, como os seres-humanos caminharam sobre por essa Terra. O que almejavam, quais eram as suas inquietações? Não se pode apagar nosso passado, nossa história e, sobretudo, a nossa arte. Eles, os clássicos, não ganharam uma etiqueta especial de obrigatoriedade de leitura, mas é nossa função garantir que eles não morram. Dito isso, fica claro que acredito que é preciso ler nossa Alta Literatura, mas não para passar no vestibular – talvez aí esteja o grande erro, mas isso é outro assunto – e sim para se apropriar da cultura do seu povo, para conhecer tudo o que culminou no hoje. Para tanto, antes é preciso formar leitores, gente que leia por prazer, mas também por busca de conhecimento. Formar gente inquieta, curiosa, pensante… O caminho é longo, mas possível e fácil de ser comprovado, veja as crianças até hoje adoram o Sítio do Pica Pau Amarelo, um grande clássico, não é mesmo? Existem tantos outros esperando para contar um pedacinho de um tempo que não vivemos, mas nos trouxeram até aqui. Fica a reflexão e o convite.

Espero que tenham gostado de conhecer um pouco da Chris. Dá um orgulho danado ser uma autora nacional. Prestigiem muito!