Já jogaram paintball? Vou explicar o óbvio, porque acredito que a maioria sabe o que é: dois times se enfrentam em rodadas de cinco minutos em um terreno hostil com armas de ar comprimido ou CO2, que atiram pequenas bolas de plástico com tinta dentro. Quem é acertado, fica com a roupa manchada e sai da rodada. É uma brincadeira que deixa a pessoa cansada, não apenas pelo esforço físico, mas principalmente pela adrenalina de se manter “vivo” no jogo. Agora vamos trocar as bolas de tinta por balas de pólvora; o terreno hostil, por uma ilha abandonada; e a rodada de cinco minutos, pelo tempo de sua vida. Esse é o clima de BATTLE ROYALE.

Os 42 estudantes da turma B do nono ano da Escola de Ensino Fundamental Shiroiwa, da Província de Kagawa, 21 meninos e 21 meninas, são os felizes escolhidos pelo Supremo Líder para participarem do programa governamental, onde pode sobrar apenas um vivo. É uma forma de controlar a população e manter a ordem. Ninguém sabe qual escola terá uma das turmas selecionadas, e os estudantes só descobrem, quando são sequestrados e levados para uma das muitas ilhas preparadas como arenas de morte.

Cada um dos estudantes recebe uma mochila com mantimentos, um mapa da ilha com quadrantes desenhados (existe um nas contracapas dianteira e traseira do livro), e uma arma aleatória, que pode ser uma faca, um revólver, uma metralhadora, uma besta, uma granada ou até veneno.

Durante o jogo, alguns quadrantes se tornam proibidos e ninguém deve permanecer neles. Do contrário, a coleira, que levam presa ao pescoço, explode. A ilha é cercada por barcos com homens armados, o que torna a fuga, aparentemente, impossível. Se ninguém morrer no período de doze horas, um dos estudantes é escolhido aleatoriamente e tem a coleira ativada. Também são anunciados, de tempos em tempos, por alto-falantes espalhados pela ilha, o nome de cada estudante que já morreu.

Devido à grande quantidade de personagens, o leitor tem o auxílio de uma lista com o nome e o número de cada um dos estudantes. Mesmo assim, por causa da semelhança de alguns nomes, fica um pouco confuso e é necessário recorrer aos capítulos anteriores para conseguir acompanhar alguns fatos.

A forma como o autor descreve o relacionamento dos personagens é extremamente inocente em comparação ao ambiente hostil e à matança que os rodeia. A isso, o autor acrescenta histórias de fundo, pensamentos, sentimentos escondidos, segredos, confissões amorosas, de amizade, e todo o turbilhão de emoções que são comuns entre os alunos secundários de uma escola. É fácil o leitor sentir uma identificação imediata por todos e não só com o trio principal, aumentando o choque ao acompanhar as mortes, mesmo aquelas que ocorrem logo nos primeiros capítulos.

E elas são criativas.

Corpos despedaçados por explosões, queimados pelo fogo, decapitados, pescoços cortados, flechadas na cabeça e no coração, suicídios por queda em penhascos, corpos metralhados, cabeças cortadas ao meio, garotas envenenadas (em um trecho, que é um dos melhores do livro, mas que eu não soube definir se é trágico ou cômico), entre outras. E tudo descrito com detalhes.

Bem diante de seus olhos, a machadinha estava enterrada no rosto de (…). Metade da lâmina se projetava do rosto dele como a placa de chocolate que decora os bolos de Natal. Entrara poe cima da testa e cortara o globo ocular esquerdo com precisão (um líquido viscoso escorria misturado ao sangue), e a lâmina da machadinha brilhava num tom azul-claro dentro de sua boca.

Mas a essência do livro está mesmo com o trio central: Shuya, Nariko e Shogo.

Shuya é aquele menino que sempre está pronto a ajudar, que não tem maldade e que se acha um ninguém, mesmo sendo inteligente, bom nos esportes e popular. Metade das garotas da sala estão apaixonadas por Shuya, sem ele ter a menor ideia disso. Na verdade, ele acha exatamente o contrário. E é cruel que ele descubra conforme cada uma delas morre durante o jogo.

Nariko, óbvio, também é apaixonada por Shuya. E ele por ela, mas de uma forma omissa, uma vez que o melhor amigo dele confessou que tem uma queda por Nariko. Por isso, Shuya não se aproxima. Quando o amigo morre, logo no início do livro (ele é um dos primeiros e nas primeiras páginas, por isso não chega a ser spoiler), ele fica dividido entre ser fiel ou se entregar a Nariko. Ela é uma garota frágil, amorosa, mas está disposta a fazer qualquer coisa para proteger Shuya.

E temos Shogo. Ele é o cara! É bom em tudo o que faz e tem um plano para se manter vivo e aos dois amigos. Mais. Ele também pretender se unir aos grupos rebeldes que querem acabar com os jogos e desmascarar o governo corrupto que governa o país. É ambicioso, mas fica claro que mantém a mesma inocência e os mesmos sonhos idealistas comuns a todo o jovem, muitas vezes completamente afastados da realidade e do tamanho de perigo que representam.

Durante a história, existe um dilema entre Shuya, Nariko e Shogo, que se resume a se deveriam convencer os colegas e se unirem como forma de se manterem vivos e encontrarem, juntos, uma forma de escapar da ilha. Shogo é contra, Shuya mantém sua convicção, porque não consegue acreditar que os meninos e meninas que dividiam a sala poderiam se matar de forma tão fria e cruel, e Nariko fica dividida.

Todos olhavam ao redor, analisando mutuamente os rostos empalidecidos. Cada vez que um estudante encontrava o olhar de outro, esquivava-se às pressas (…). Isso durou apenas alguns segundos, mas a expressão no rosto de todos era a mesma. Uma expressão de tensão e desconfiança. Uma expressão que denotava dúvida se o colega em frente não estaria pronto para participar do jogo.

Com o avançar da história, Shuya descobre que o ser humano é capaz de qualquer coisa para se manter vivo. O autor não força situações para comprovar essa teoria. Ele apenas apresenta os conflitos e as motivações de cada um dos estudantes. As atitudes que tomam, são perfeitamente plausíveis e coerentes com a história de cada um. E é fácil comprovar essa veracidade. Basta comprar um daqueles jornais que vendem nos sinais de trânsito e abrir na seção policial.

Escrito em 1996, BATTLE ROYALE só foi publicado no Japão em 1999 e tornou-se um dos livros mais vendidos e controversos do país. Em 2000, estreou o filme, dirigido por Kinji Fukasaku, que também escreveu o roteiro com o auxílio do próprio Koushun Takami, o que o deixou bastante fiel ao livro. Também existe um mangá que foi publicado no Brasil pela Conrad entre 2006 e 2011, em 15 edições. Tanto no mangá, como no filme, o nome e o comportamento de alguns personagens foi modificado.

O filme só foi exibido nos EUA em 2002 e, mesmo assim, para uma audiência restrita no estado da Califórnia. Finalmente, em 2011, mais de uma década depois da estréia no Japão, ele chegou ao circuito comercial, o que fez com que muitas pessoas pensassem que ele copiava JOGOS VORAZES, mas é extamente o contrário: Suzanne Collins praticamente fez um copy/past nas principais características da obra japonesa. Vamos comparar?

UM: As histórias se passam em um futuro distópico, onde as pessoas sofrem por causa de um regime totalitário, que criou um projeto para disseminação do medo e comprovação do controle, onde jovens são levados para um local isolado e secreto, onde precisam lutar e se matar, até que sobre apenas um;

DOIS: A arena de combate tem quadrantes aleatórios, onde se os jovens ficarem muito tempo parados, morrem;

TRÊS: As mortes são anunciadas por um meio de comunicação que abrange toda a ilha;

QUATRO: Existe um grupo rebelde que pretende depôr o governo tirano;

CINCO: Os jovens possuem armas que podem usar para se matarem;

SEIS: Um dos jovens se transforma em vilão dentro da arena, enquanto fora dela, também existe o vilão que controla os jogos;

SETE: Existe um romance entre o casal principal;

Quando Koushun Takami foi questionado se iria processar Suzanne Collins por plágio, ele respondeu da forma educada e distante que caracteriza os orientais: ele respondeu que não iria processar, que mesmo sendo muito parecido, o livro de Collins deveria ter algo a mais para acrescentar a quem ler. Então, se o próprio autor ignorou, quem somos nós para criticar, certo?

BATTLE ROYALE é uma leitura tensa e cruel, pela forma como transforma o espírito jovem de cada aluno em uma versão dolorosa dos próprios traumas e imperfeições. É triste imaginar que a amizade pode ser facilmente substituída pela desconfiança e pela necessidade de matar para sobreviver.


AVALIAÇÃO:


AUTOR: Koushun TAKAMI nasceu em 10 de janeiro de 1969, na cidade de Amagasaki, perto de Osaka. Formado em literatura pela Universidade de Osaka, trabalhou como repórter de política e economia. Deixou o jornalismo para se dedicar à literatura, mas não lançou nenhuma obra além de Battle Royale, que foi desclassificada na fase final do prêmio Japan Grand Prix Horror Novel pelo seu conteúdo polêmico
TRADUÇÃO: Jefferson José TEIXEIRA
EDITORA: Globo
PUBLICAÇÃO: 2014
PÁGINAS: 664


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