Existem várias histórias por dentro e por fora de MINHA COISA FAVORITA É MONSTRO, algumas delas verídicas, mas tão incríveis, que parecem inventadas por alguma mente muito criativa. Posso começar pela história de como o livro foi feito, por exemplo. Emil Ferris teve sua obra recusada por 48 editoras. A Other Press até tentou publicar, mas desistiu, com a justificativa de considerar o trabalho editorial, de quase 800 páginas, grande demais, eles não conseguiriam torná-lo comerciável e rentável. Felizmente, apareceu a editora Fantagraphics, localizada em Washington, e conhecida por trabalhos autorais de fantasia. Eles aceitaram publicar, mas em dois volumes. Após finalizada a produção, o navio, que levava a primeira tiragem de 10.000 cópias, foi confiscado no canal do Panamá, porque a transportadora faliu. O processo de liberação levou um mês. E mais um mês depois, todas as 10.000 cópias foram vendidas. Uma nova tiragem de 30.000 cópias foi feita, a maior tiragem já produzida pela Fantagraphics, e venderam tudo. Logo em seguida, a Sony comprou os direitos de adaptação para o cinema. E nesse ano, a obra ganhou os maiores prêmios mundiais dos quadrinhos: o Fave D’Or, francês; e o Eisner de Melhor Álbum, Melhor Roteirista, Melhor Desenhista e Melhor Colorista.

Temos também a história de Emil Ferris. Ela trabalhava como designer de brinquedos do McDonald’s e, aos 40 anos de idade, contraiu a febre do Nilo através da picada de um mosquito. A doença paralisou Ferris da cintura para baixo, bem como sua mão direita. Enquanto se recuperava, Ferris começou a trabalhar em MINHA COISA FAVORITA É MONSTRO. Era sua terapia, sua maneira de reativar seus movimentos e conseguir voltar a ser como era. Durante 6 anos, utilizando apenas canetas esferográficas tipo Bic, ela escreveu e desenhou a obra. As páginas simulam folhas pautadas de um caderno, e os textos e desenhos representam o diário de uma garota de 10 anos de idade, que vivia na Chicago de 1968. Nesse período, Ferris recebeu um MFA por escrita criativa da Escola de Artes de Chicago. Hoje, aos 57 anos de idade, ela é uma das maiores e mais prestigiadas quadrinistas do mundo.

Uma terceira história, é a história de MINHA COISA FAVORITA É MONSTRO. Na HQ, lemos o diário da pequena Karen, uma garota de 10 anos de idade que usa seus cadernos para desenhar aquilo que mais gosta: monstros! Em meio a desenhos de criaturas assustadoras e réplicas que ela faz das capas de revistas do gênero terror, ficamos sabendo de seu dia-a-dia, das pessoas que a rodeiam, de seus pensamentos sobre essas pessoas, de sua família, uma mãe e um irmão, bem como de como era a sociedade da época sob a ótica de uma criança. Nas páginas, Karen também se desenha, mas não como uma garotinha, e sim como lobisomem. Mas a história não é apenas sobre seu cotidiano, uma vez que acontece a morte da vizinha de Karen, a senhora Anka, uma judia que possuía várias cicatrizes pelo corpo, bem como inúmeros segredos em sua vida. Tudo aponta para um suicídio, uma vez que não foram encontrados sinais de invasão, mas Karen tem suas suspeitas, porque ela viu algo que mais ninguém viu, e por isso, ela acha que Anka foi assassinada. Por causa dessa quase certeza, Karen começa sua investigação para descobrir quem matou Anka. E isso faz com que ela interaja com pessoas que possuem tantos, ou mais, segredos que Anka, descubra fatos sobre seu passado que desconhecia, e compreenda melhor quem realmente são sua mãe e seu irmão.

A quarta história é uma que acontece dentro da história de Karen, que é o passado de Anka. No meio da HQ, quando Karen tem acesso a fitas de áudio de Anka, caímos em eventos que parecem saídos do pior pesadelo que alguém poderia ter. Voltamos décadas atrás, quando Anka ainda era uma criança, e vamos avançando, passando por casas de prostituição, venda de crianças, rituais de sacrifício, nazismo, guetos de judeus, campos de concentração, o holocausto, até quase chegar no presente de Karen. Todo esse arco, que se intercala com as investigações do assassinato de Anka e a vida de Karen, é de uma intensidade que exaure a energia do leitor. É impossível ficar impassível ao que se lê, é impossível não sentir um profundo desespero, ainda mais quando tomamos consciência de que o que está sendo contado, não é totalmente ficção, mas acontecimentos baseados em fatos reais. Sim, porque MINHA COISA FAVORITA É MONSTRO é baseado em lembranças da autora, da vida dela e da vida de pessoas que ela conheceu e conhece.

A contagem das histórias não termina na quarta. Existem outras que se intercalam conforme Karen conta seus dias. Temos a história do gangster que é traído pela esposa; temos a história da mãe de Karen e de como, aos poucos, a menina descobre o porquê da mãe estar perdendo o cabelo; a história do irmão de Karen, Dezê, e de como várias coisas que ele fez, e ainda faz, afetam as vidas de várias pessoas; a história de um dos amigos adultos de Karen, de como por ele ser negro, é discriminado; a história do vizinho que mantém o corpo quase todo coberto, inclusive o pescoço, porque possui várias cicatrizes e um tom azulado na pele; a história de uma das amigas do colégio de Karen e de sua importância na descoberta da orientação sexual de Karen; o bullying que Karen sofre por causa de seus desenhos e da forma como se veste e comporta. Todas essas histórias, individualmente, renderiam excelentes quadrinhos. Juntas, interligadas com extrema competência e naturalidade, incitam no leitor um turbilhão de sentimentos que transformam a leitura em uma experiência única.

Karen é uma personagem fascinante. Por ter apenas 10 anos de idade, ela ainda possui a inocência e a ingenuidade características dessa fase da vida. Em alguns de seus relatos, ela não consegue diferenciar quem é bom e quem é mau, ou qual o verdadeiro objetivo de algumas ações, ou a compreensão de algumas decisões, ou mesmo a real função de alguns locais. Por exemplo, em determinado momento, quando ela descobre uma parte da vida de Anka, são mencionadas casas que servem de prostituição e abuso de menores, mas essas casas possuem nomes comuns, sem ter qualquer relação com o que existe de terrível dentro delas, e Karen fica sem entender. Ou mesmo quando é mencionado os guetos dos judeus na Segunda Guerra Mundial, ou os campos de concentração e de extermínio, ela não compreende o que acontecia neles. Entretanto, o leitor compreende. E sofre no lugar dela.

É quase instantâneo se apaixonar por Karen. Uma das personagens mais carismáticas que conheci nos quadrinhos ou nos livros. Não apenas por sua inocência, mas, principalmente, pela forma como ela vê o mundo. Mesmo sendo apaixonada por monstros, desenhando criaturas horrendas, e até transformando pessoas que ela não gosta ou que fazem mal a alguém em criaturas deformadas e assustadoras, ela não consegue distinguir a maldade que a rodeia.

Apesar de viver com a mãe e o irmão, ela desconhece parte de seu passado. Pelos cantos da casa, Karen percebe que existem cochichos, segredos que são escondidos dela, sem ela saber o motivo. E ela pensa o que qualquer criança nas mesma situação pensaria: que há algo de errado com ela. Ainda mais por a considerarem diferente no colégio. Karen se sente deslocada, solitária. Esses são alguns motivos que fazem com que ela se desenhe como um lobisomem. E uma das partes mais emocionantes da história, é quando ela é confrontada pelo irmão em frente a um espelho e ele insiste para que Karen se olhe de verdade, como uma menina linda e corajosa, sem ver a imagem de um monstro. Essa é uma representação daquilo que muitos de nós sentem. Muitos de nós possuem uma imagem diferente da realidade de como somos, seja para melhor ou para pior. E precisamos de alguém que nos confronte com nosso reflexo no espelho, para que possamos crescer, ganhar confiança.

Existem muitas outras partes emocionantes em MINHA COISA FAVORITA É MONSTRO, partes desenhadas de uma forma belíssima, como quando Karen está junto com seu amigo negro e ficam sabendo que Martin Luther King foi assassinado. Os dois estão em um ponto elevado da cidade e, ao longe, eles observam as colunas de fumaça dos incêndios provocados pelas rebeliões urbanas em protesto à morte do ativista político. Como também são belíssimas as reproduções de diversas obras de arte que a autora fez de forma incrível. Karen adora visitar museus, e alguns trechos da história acontecem nesses locais. Algumas vezes, Karen mistura a história que conhece com a história de diversos quadros famosos, e a autora os reproduz com absoluta fidelidade, só que desenhados com riscos de canetas coloridas.

Eu poderia escrever várias páginas sobre MINHA COISA FAVORITA É MONSTRO, porque há material demais para ser discutido, para ser apreciado. Mas não posso terminar a resenha sem parabenizar um outro trabalho, o de adaptação e tradução feito por Érico Assis. Foi algo monumental, de um capricho sem igual, ainda mais em tantas páginas, onde as letras se misturam com diversas camadas de riscos, desenhos e fundos. Vou deixar aqui um vídeo onde o tradutor explica como fez seu trabalho, para vocês terem uma ideia da complexidade e da qualidade.



Uma obra como MINHA COISA FAVORITA É MONSTRO deve ser lida por todas as pessoas. Por causa de seu tamanho, é uma HQ cara, que a maioria não tem condição de comprar. Por isso, vou sortear um exemplar, mas quem ganhar, pense com carinho na possibilidade de emprestar ou dar de presente, após completar a leitura, para alguém que não tenha condições de comprar. Livros precisam ser lidos pelo máximo de pessoas e não apenas guardados numa estante ganhando poeira. Principalmente esta HQ que é uma obra de arte e um ensinamento sobre a perda da inocência e a crueldade das pessoas.

Então, para concorrer a um exemplar de MINHA COISA FAVORITA É MONSTRO, basta seguir as regras abaixo!

REGRAS

UM: Preencher o formulário de participaçăo, sendo que existem entradas obrigatórias, que valem um ponto cada uma, entradas opcionais, que valem cinco pontos cada uma, e uma entrada diária opcional, que vale cinco pontos a cada dia que vocę a fizer. Quantos mais pontos vocę somar, mais chances tem de ser sorteado;

DOIS: Deixar um comentário neste post;

TRĘS: O ganhador precisa ter endereço no Brasil para receber o pręmio;

QUATRO: Após 26/05/2019, será feito o sorteio pelo formulário de participaçăo;

CINCO: O pręmio será enviado em até 30 dias úteis, após divulgado o resultado. O blog năo se responsabiliza por extravios, danos ou roubos do pręmio enviado;

SEIS: O ganhador(a) terá 48 horas para responder ao e-mail de solicitaçăo do endereço. Caso năo responda nesse prazo, será desclassificado(a) e um novo nome será sorteado;

SETE: O blog GETTUB se reserva o direito de dirimir questőes năo previstas nestas regras.

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AVALIAÇÃO:


AUTORA: Emil FERRIS nasceu em 1962, em Chicago. Ainda vive na cidade e é devota de tudo que é horrendo e mosntruoso. É escritora, ilustradora, projetista de bonecos, além de mestre em artes plásticas pelo Instituto de Arte de Chicago.
TRADUÇÃO: Érico ASSIS
EDITORA: Quadrinhos na Cia.
PUBLICAÇÃO: 2019
PÁGINAS: 416


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