Se você não sabe quem foi Jim Henson, vou resumir: ele foi um dos caras mais criativos e importantes da indústria do cinema e televisão. Ele criou os MUPPETS, deu vida ao Yoda de STAR WARS, às criaturas do clássico de fantasia LABIRINTO, entre muitos e muitos outros personagens de pano, corda e varetas. Mas antes de tudo isso, no início de sua carreira, lá pelos anos de 1968, Henson e seu amigo, Jerry Juhl, escreveram o roteiro de um filme que acabou nunca sendo feito, não apenas pelo tom surrealista da história, mas porque Henson começou sua subida ao estrelato com a estreia de SESAME STREET, que você deve conhecer, aqui no Brasil, como VILA SÉSAMO.

Bem, o roteiro acabou esquecido nos arquivos da empresa, até que em 2012, Ramón Pérez, um dos mais talentosos desenhistas da atualidade, com trabalhos incríveis nas HQs de WOLVERINE, X-MEN e GAVIÃO ARQUEIRO, adaptou o único filme nunca produzido por Henson para a nona arte. Resultado? CONTO DE AREIA ganhou três prêmios EISNER (o Oscar dos quadrinhos): Melhor Álbum Gráfico, Melhor Desenhista e Melhor Design de Publicação, além de outros prêmios pelo mundo afora.

Em CONTO DE AREIA, acompanhamos Mac, o personagem principal, chegando em uma cidade do Oeste americano, sendo recebido como herói e recebendo do Xerife um mapa para ele poder chegar no alto de uma montanha, sendo que o mapa pode estar errado, e não existe um motivo para ele chegar no alto da montanha. O certo é que ele precisa chegar lá, antes que algumas pessoas consigam alcançá-lo com o objetivo de matá-lo. A partir de então, ele começa uma sequência de eventos sem qualquer lógica sequencial, passando por locais impossíveis de existir e conhecendo pessoas que sempre sabem mais do que ele e parecem confabular para algo que ele não compreende.

Como em toda história surrealista, não há como identificar apenas uma mensagem. Tudo depende da sensibilidade e da interpretação do leitor de cada situação. E cada situação pode funcionar de forma independente, com uma mensagem única. Existem teorias pela Internet sobre o que Henson queria transmitir, como a luta contra o cigarro, uma vez que Mac sempre tenta acender um e nunca consegue; ou uma metáfora sobre a vida, com suas fases difíceis de se passar; ou até mesmo sobre a fim da vida, quando a pessoa se encontra em seus últimos minutos e faz um retrospecto do que viveu.

Na minha visão particular, e você, se ler a HQ, terá a sua própria, não é nada disso. Henson tinha uma mente criativa prodigiosa. Em CONTO DE AREIA, eu acho que ele apresentou a forma com sua mente funcionava, onde um personagem poderia viver mil aventuras, em mil universos diferentes; onde não existia limite para o possível e nem leis para uma ordem certa; onde, ao fim de uma ideia, ele sempre poderia voltar ao início e criar algo igual, mas, ao mesmo tempo, diferente. Mac, na minha percepção, é a criatividade de Henson, sempre perseguida pela cobrança de algo novo, sempre numa corrida para chegar no topo da montanha, sempre encontrando saídas em pequenas chances, por mais absurdas e impossíveis elas pareçam.

Uma história desse nível de subjetividade, poderia se perder nas mãos de um artista pouco talentoso. Isso, felizmente, não aconteceu. Pérez fez um trabalho único, uma obra de arte digna de todos os prêmios que recebeu. A composição de seus quadros, em conjunto com os cenários e com a transposição dos personagens de um ponto a outro, é algo de impressiona e assombra. Ele conseguiu transpor para os quadrinhos todo o roteiro com uma maestria que duvido que pudesse se equiparar em um filme. Mas não só isso: ele conseguiu combinar as cores alegres, contidas, pasteis, de uma forma que trabalham em conjunto com todo o resto como, e na verdade é, uma única coisa. Confesso que ao terminar a leitura, eu voltei as páginas várias vezes e fiquei apenas admirando a arte, cada detalhe, cada combinação. É algo que, sem qualquer exagero, é digno de ficar exposto em uma galeria.

A produção da edição nacional de CONTO DE AREIA ficou maravilhosa, um primor que está presente em todas as páginas e na capa. Uma grande obra de arte que você terá orgulho de mostrar na sua estante. E por um preço que fica muito abaixo do que a obra vale. Então, por favor, não deixe de ler e se deslumbrar com a criatividade infinita de Henson, com a arte de Pérez e com um trabalho editorial de primeira.


AUTOR: Jim HENSON e Jerry JUHL
ILUSTRADOR: Ramón PÉREZ
TRADUÇÃO: Marília TOLEDO
EDITORA: Pipoca e Nanquim
PUBLICAÇÃO: 2018
PÁGINAS: 164


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