Enola é a irmã caçula de Sherlock e Mycroft Holmes. Desde sempre, ela mora com sua mãe, Eudoria, em uma pequena localidade próxima de Londres. Os irmãos pouco as visitam, mas as duas não se importam realmente. Elas passam os dias fazendo o que bem entendem, sem compromisso, sem cobrança. Enola é feliz assim e idolatra a mãe, que a educa em diversas áreas, tanto mentalmente, como fisicamente. Mas um dia, sem qualquer aviso, a mãe de Enola desaparece. Desesperada, Enola recorre aos irmãos.

Quando Sherlock e Mycroft chegam de Londres, encontram uma irmã e uma casa bem diferentes do que eles esperavam. Mycroft enviava dinheiro mensalmente para a mãe, com a finalidade de manter a residência Holmes em perfeito estado, e na educação de Enola em um internato para moças. O contrário da realidade. E mais: aparentemente, Eudoria não desapareceu, ela foi embora por algum motivo. Sem pistas, Sherlock e Mycroft decidem retornar a Londres, onde poderão fazer algo de mais concreto, mas antes precisam levar Enola para uma colégio e a educar com os modos de uma moça.

Mas Enola descobre uma mensagem criptografada da mãe, que uma vez decifrada, leva a outra, e assim Enola decide fugir para continuar a busca por Eudoria, sem ter que ficar presa em um internato. E nessa fuga, ela esbarra em outro mistério, o sequestro do filho de um lorde. Revoltada e Instigada por mostrar a si mesma que é tão inteligente e capaz quanto os irmãos, ele começa sua investigação em paralelo à busca pela mãe. Mas os perigos que a esperam em Londres, podem ser maiores do que uma jovem de 14 anos pode dar conta, e sua vida passa a correr risco.

ENOLA HOLMES é uma aventura curta, uma novela, na verdade, com pouco mais de cem páginas, que passam voando, não apenas pela pouca quantidade, mas pelo dinamismo da narrativa e pelas situações em que a personagem se mete. Enola é a definição perfeita de mulher independente, que não precisa, e nem deseja, nenhum homem para a salvar dos apuros, que sabe se defender, que sabe desvendar mistérios e compreender complicadas pistas. E tudo isso em uma época onde a mulher era vista com um gênero totalmente figurativo.

E esse contraste entre a força da personalidade e da presença de Enola, com aquilo que os homens da época esperam de uma garota, de uma mulher, é delicioso de acompanhar e dá aquela vontade de bater palmas e gritar por cada vez que Enola responde à altura, ou faz algo que deixa os homens perplexos por acharem que ela não seria capaz. É uma crítica mordaz a costumes bárbaros, que não são mais aceitos, e que são estudados com uma grande vergonha por aquilo que já fomos.

ENOLA HOLMES não é um livro com uma mensagem feminista, longe disso, mas é um livro que demonstra, claramente, que não existe diferença entre gêneros, e é sagaz na forma como faz isso, sempre com uma boa dose de humor, um leve tapa de pelica, que é fundamental para não perder sua essência de aventura.

O mesmo se pode dizer para o filme da Netflix. A escolha de Millie Bobby Brown, a Seven de STRANGER THINGS, para dar vida a Enola, foi perfeita. Ela tem toda a vivacidade e todo o atrevimento que a personagem exala a cada ato. E sem perder sua jovialidade. Henry Cavill tem uma grande presença em cena, e representa bem sua versão do livro, não fisicamente, uma vez que Sherlock não tinha uma massa muscular tão grande, era mais magro, mas com sua simpatia. Sim, no livro, Sherlock não é aquele personagem petulante e de nariz em pé das versões originais de Conan Doyle, mas um irmão mais velho, que consegue demonstrar carinho e preocupação com a irmã. E nessa versão mais amorosa, Cavill está perfeito.

Toda a produção segue a mesma qualidade da maioria dos filmes da Netflix de grande orçamento. O roteiro realiza algumas mudanças na história, tornando-a ainda mais ágil e dinâmica, com mais ação, e com uma Enola ainda mais contundente na sua força. E o filme não modifica as mensagens de sororidade do livro necessárias à época, e por mais absurdo que pareça, necessárias ainda hoje em dia. O humor dessas passagens está excelente e condizem perfeitamente com o que está no livro. Na verdade, é difícil dizer se gostei mais do filme ou do livro. Acho que ambos estão no mesmo patamar, mas cada um na sua área da imaginação.

Claro que vou ler os outros volumes da série de Enola, e espero que o filme seja um sucesso, para que esses outros volumes sejam adaptados. Na verdade, eu desejava mesmo é uma série da Enola, não apenas um filme. Ela merece demais! Além de que algumas coisas ficam por resolver…


AUTORA: Nancy SPRINGER
TRADUÇÃO: Livia KOEPPL
EDITORA: Verus
PUBLICAÇÃO: 2020
PÁGINAS: 179


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DIREÇÃO: Harry BRADBEER
DISTRIBUIÇÃO: Netflix
DURAÇÃO: 2 horas e 3 minutos
ELENCO: Millie Bobby BROWN, Henry CAVILL