Um mundo sem mulheres. Os únicos habitantes são homens. E eles podem ouvir os pensamentos uns dos outros. Essa é a premissa de MUNDO EM CAOS, e foi ela que me chamou a atenção para o livro. Fiquei curioso sobre como algo assim seria tratado pelo autor, ainda mais nos dias de hoje, onde um grupo de homens e mulheres abusam da ignorância e acham que machismo é coisa de gente que só sabe reclamar ou que feminismo é uma forma de se despir ou de não se depilar. É um assunto importante, sensível, que se não for bem conduzido, pode ser um desastre.

Entretanto, conforme lia, percebi que MUNDO EM CAOS não tem esse objetivo, a história não caminha nessa direção, mas, sim, na direção de uma distopia que mistura um pouco de ficção-científica para construir um enredo que pretende unicamente entreter, através de alegorias sobre religião, perseguições, muita ação e uma ou outra surpresa. E, sinceramente, acho que foi uma decisão acertada. Na verdade, acho que até foi um trabalho muito cuidadoso, porque qualquer distração, poderia direcionar a história para uma discussão sobre gêneros. E isso não acontece em momento algum. O que o autor pretende é discutir sobre como as pessoas, independentemente se são homens ou mulheres, podem se tornar corruptas pelo poder absoluto e como a religião é usada como meio de convencimento para se conseguir isso.

Todd vive em Prenntisburgo, uma pequena cidade no meio de um pântano de um planeta escolhido para ser colonizado, para ser uma nova Terra, cuja população é de 146 homens e 1 criança. Mas por pouco tempo, logo será de 147 homens, uma vez que Todd está há poucos dias de completar 13 anos, idade em que passa a ser considerado um adulto. Lá só existem homens, porque houve uma guerra com os spackles, um grupo de nativos do planeta, e eles soltaram uma arma biológica que matou todas as mulheres, além de fazer com que os homens e os animais passassem a compartilhar pensamentos. Assim, todos sabem o que os outros pensam, inclusive vacas, cachorros, pássaros, ou qualquer outro ser vivo. Eles nomearam essa situação de Ruído, uma vez que a maioria dos pensamentos são como estática, não são tão fluidos, e quando se misturam com várias pessoas e animais reunidos, vira uma enorme confusão, que precisa de concentração para ser compreendido e não ficar louco.

Em uma ida ao pântano com seu cachorro, Manchee, Todd descobre uma área de silêncio, onde ele não houve qualquer pensamento, e isso causa estranheza. Ele resolve investigar e encontra uma garota da sua idade escondida no meio de rochas. Mas isso seria impossível, uma vez que todas as mulheres morreram. E ainda mais impossível, é ele não conseguir ouvir o que ela pensa. A garota foge de Todd, e quando ele volta para a cidade, e seus pais adotivos, Ben e Cillian, ouvem seu pensamento sobre o que descobriu, entram em desespero e mandam que Todd fuja da cidade o mais rápido possível. Todd não compreende o que está acontecendo, mas obedece. Bem a tempo, porque logo toda a cidade está atrás dele, armados e decididos a matar quem se meter entre eles e Todd.

Todd é infantil, imaturo e pouco inteligente. Ou com uma inteligência pouco desenvolvida. O que até é compreensível, uma vez que ele ainda é uma criança. Em Prenntisburgo não existem escolas, o prefeito não permite, então Todd não sabe ler, nunca leu nenhum livro, nunca aprendeu matemática, física, química, biologia, ou qualquer outra matéria, o conhecimento que possui é o básico para viver. Quando ele se vê numa situação de sobrevivência, onde desconhece o motivo de estar sendo caçado, com uma garota ao seu lado que se recusa a falar com ele e que nem deveria estar viva, o mundo já frágil em que ele vivia, desmorona. Todd, durante a história, tem decisões burras, teimosias de alguém que não aceita que está errado, e achei isso coerente com a pouca vivência do personagem. E isso é bem construído pelo autor, porque com o desenvolver da trama, conforme Todd descobre as verdades escondidas, ele amadurece, passa a confiar mais, passa a pensar mais, ganha coragem e firmeza em suas decisões. Gosto quando acontece uma evolução do personagem de acordo com o que ele sofre na história.

Viola é a garota que Todd encontra. Por boa parte da história, ela é uma incógnita para o leitor. Não compreendemos inteiramente quem ela é, como chegou ao pântano, como está viva, porque seus pensamentos estão bloqueados e porque todos estão caçando Todd por ele ter descoberto Viola. Mas, aos poucos, vamos descobrindo que ela pode não ser o motivo da perseguição. Ela é destemida, corajosa, inteligente, decidida, praticamente o oposto de Todd. A amizade dos dois é construída perante a necessidade de permanecerem vivos diante da caçada. Eles combinam, apesar das diferenças, ou principalmente pelas diferenças, e quando chegamos ao final do livro, não se consegue ver um sem o outro. Viola começa como a causadora da perseguição e termina apenas como uma consequência dela, porque tudo o que se pensa sobre ela no início, se descobre ser um erro, um engano. E essa é uma das boas surpresas da história.

Manchee é um cachorro e é o terceiro personagem da história, o mais carismático, o mais corajoso, o mais fiel e o mais frágil. A interação dele com Todd é emocionante, o sentimento que eles compartilham é emocionante. Logo nas primeiras páginas, o cachorro conquista o leitor, principalmente por seus pensamentos, que são bastante fidedignos ao que um cachorro realmente deve pensar. As palavras aplicadas à lógica dos pensamentos de Manchee são convincentes e engraçadas. Mas também são tristes, porque evidenciam ainda mais que o animal não tem qualquer noção de como o homem é perigoso, cruel e ingrato. Algumas partes em que Manchee não compreende o que está acontecendo, o porquê de este ou aquele personagem tomarem determinadas atitudes, são de cortar o coração.

Os demais personagens secundários aparecem pouco, mas em momentos significativos, cuja presença é necessária. Não são personagens de enfeite, todos eles têm sua importância dentro da trama. Principalmente Aaron, um garoto do pântano que é um fanático religioso. Mas não uma religião que conhecemos e, sim, uma religião criada pelo prefeito de Prenntisburgo, uma nova, cuja síntese só ficamos sabendo no final do livro. Aaron persegue Todd, Viola e Manchee por toda a história. Por mais que ele fique ferido, ele continua, ele é imparável. Essa determinação, essa confiança cega, mesmo quando a obviedade de seus erros é jogada na sua cara, é uma alegoria de como funciona o fanatismo. Não apenas religioso, mas qualquer fanatismo que torna a pessoa cega para qualquer coisa que não aquilo que ela quer acreditar.

MUNDO EM CAOS é mais sobre isso, sobre como o ser humano escolhe ignorar as certezas em prol de algo que ele acredita, mesmo sendo injusto, sendo cruel, sendo ridículo, sendo errado, apenas para se satisfazer, para permitir que ele construa uma utopia assassina que o torne poderoso perante os semelhantes. E isso não é uma distopia, uma vez que as seitas existia em grande quantidade nos EUA no século passado, onde as pessoas eram guiadas por líderes para a destruição, de forma cega, como robôs. O mesmo pode ser aplicado aos dias de hoje, quando pessoas seguem líderes políticos que utilizam de mentiras como verdades, mentiras que as pessoas preferem acreditar apenas para fazerem parte de algo e serem contra outro algo que elas não gostam.

O único defeito de MUNDO EM CAOS é uma característica que se tornou comum entre muitos autores: para transformar uma história em uma trilogia, há o excesso de situações redundantes, criadas apenas para preencher mais páginas e empurrar a trama. MUNDO EM CAOS poderia, perfeitamente, ter umas 100 páginas a menos, porque várias situações se repetem mais de uma vez sem qualquer necessidade e sem avançar em nada a trama. Felizmente, por habilidade do autor, elas não são maçantes, uma vez que são situações de perigo e fuga, mas são situações de perigo e fuga que copiam outras do mesmo tipo de alguns capítulos anteriores, e fica óbvio que estão lá apenas para que a história não termine muito rápido.

Tirando isso, MUNDO EM CAOS é uma distopia que tem uma história criativa, que foge da mesmice do gênero, apresenta personagens bem construídos, cativantes, coloca uma discussão importante sobre fanatismo, domínio pelo poder, lavagem cerebral através de discursos de ódio. E para fechar, tudo em uma edição caprichada, com capa envernizada, páginas com bordas vermelhas e uma diagramação diferenciada. Com certeza vale a leitura!

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REGRAS

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DOIS: Deixar um comentário neste post;

TRĘS: O ganhador precisa ter endereço no Brasil para receber o pręmio;

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CINCO: O pręmio será enviado em até 30 dias úteis, após divulgado o resultado. O blog năo se responsabiliza por extravios, danos ou roubos do pręmio enviado;

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SETE: O blog GETTUB se reserva o direito de dirimir questőes năo previstas nestas regras.

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AVALIAÇAO:


AUTOR: Patrick NESS é o autor best-seller da trilogia Chaos Walking e de A Monster Calls.
Aclamado pela crítica, já recebeu diversos prêmios como escritor de ficção para crianças, incluindo duas medalhas Carnegie, no Reino Unido. Já foi colunista do Sunday Telegraph e hoje é crítico literário no The Guardian. Patrick nasceu na Virgínia, nos Estados Unidos, e vive em Londres.
TRADUÇAO: Edmundo BARREIROS
EDITORA: Intrínseca
PUBLICAÇAO: 2019
PÁGINAS: 480


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